A Revolução foi feita para transformar as condições sociais da Bolívia e fazer com que os indígenas, até agora passivos, convertam-se em um elemento ativo para a economia, sejam protagonistas da democracia. E, com a nacionalização, (...) pretendemos que os lucros extraordinários saiam das mãos dos proprietários, passando a ser utilizados para o progresso do país.
A citação acima parece ter sido tomada de declarações de um líder da revolta popular indígena que vem sacudindo a Bolívia nos últimos meses. Mas não foi. A frase é de Victor Andrade, ministro do Trabalho do governo nacionalista que assumiu o poder após uma revolução de camponeses e mineiros indígenas, em 1952. O movimento destruiu o exército regular – substituído por milícias populares – e deu início a uma das mais profundas experiências de reforma agrária na América Latina.A origem dessa semelhança histórica é o fato de que rebelião indígena, lutas por melhores condições de vida e pela nacionalização dos recursos naturais sempre estiveram interligadas na equação da história boliviana. Desde a rebelião liderada por Julian Apaza, o Tupac Katari (“serpente soberana”, em idioma aimará) em 1780-82, que mobilizou um exército de dezenas de milhares de ameríndios contra o domínio espanhol e contra a mita, a servidão nas minas e plantações.
A fase mais tensa da tradicional equação histórica boliviana aconteceu a partir dos anos 1930, quando militares nacionalistas, descontentes com a derrota do país diante do Paraguai na Guerra do Chaco (1932-35), lideraram um movimento pela nacionalização do estanho, então e por muito tempo o principal produto de exportação.
Com o apoio dessa corrente militar, Victor Paz Estenssoro, do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), venceu as eleições de 1951, mas não assumiu, por conta de um golpe conservador liderado pelo general Hugo Ballivián.
Foi aí que os mineiros de estanho, de origem indígena, liderados por Juan Lechín, da ala esquerda do MNR e líder da Central Operária Boliviana (COB), invadiram a capital, armados com dinamite, e forçaram a posse de Estenssoro. O exército foi dissolvido, o novo governo garantiu o direito de voto aos analfabetos, iniciou a reforma agrária e a nacionalização das minas. A nova estatal da mineração de estanho, a Comibol, melhorou as condições de trabalho nas minas, onde os operários morriam de doenças respiratórias antes dos 40 anos.
Acontece que os preços do estanho no mercado internacional entraram em queda desde a década de 70, reduzindo a capacidade do Estado em investir no setor e provocando forte contração das receitas de exportações.
Em meados da década de 80, no meio de devastadora crise financeira e inflacionária, um governo ultra-liberal privatizou grande parte do que havia sido estatizado na Bolívia. As minas perderam três quartos da sua força de trabalho. O Brasil desempenhou papel de destaque, adquirindo grandes empresas com o o Lloyd Aereo Boliviano (comprado pela Vasp) e obtendo concessões importantes para a exploração e o transporte de gás.
As privatizações ampliaram o desemprego e o descontentamento social. O país também viu surgir um novo ator, o fortíssimo movimento dos cocaleros, camponeses que cultivam a folha de coca, usada tradicionalmente como estimulante, mas também base para a produção de cocaína.
De origem indígena e tendo à frente o líder Evo Morales, eles começaram desafiando as tentativas dos governos, apoiados e financiados pelos Estados Unidos, de eliminar a produção de coca. Depois de anos de isolamento, voltaram, no início desta década, a articular-se a outros movimentos sociais, como a veterana COB. A “serpente soberana” da revolução popular, dormente mas nunca esmagada, voltava a circular pelo Altiplano boliviano.Os cocaleros e a COB ganharam, nos últimos anos, a companhia de um novo movimento social: os moradores de El Alto, município periférico da aglomeração urbana de La Paz, situado na parte superior e paupérrima da capital política, no caminho entre o centro urbano e o aeroporto internacional. Os habitantes de El Alto são subempregados e desempregados de origem indígena – os grandes órfãos das privatizações, do fechamento das minas e do êxodo rural. A incapacidade do Estado para estancar os protestos sociais abriu espaço até para o crescimento de um movimento empresarial que prega a autonomia da rica região de Santa Cruz de La Sierra, no leste boliviano.
A população da Bolívia gira em torno de 8,9 milhões de habitantes. Os ameríndios, quéchuas e aimarás, formam cerca de 55% do total e os mestiços, 30%. A elite branca controla as empresas, em estreita associação com os capitais internacionais.
Mais de meio século depois da revolução de 1952, a história da “serpente soberana” se repete, agora com uma novidade: não se trata mais do estanho e sim do gás, que a Bolívia exporta principalmente para o Brasil.
O primeiro tempo da nova revolução boliviana terminou, com a aprovação de pesados impostos sobre a extração e o comércio de gás, em maio, e a queda do governo de Carlos Mesa, em junho, depois de longas jornadas de ocupação de La Paz pelos mineiros e pelos moradores de El Alto. Evo Morales, sua central de cocaleros e seu partido, o Movimento al Socialismo (MAS), parecem satisfeitos e querem uma redução dos protestos, de olho em uma possível vitória nas próximas eleições presidenciais.
O Brasil, principal investidor estrangeiro na Bolívia, apóia discretamente a candidatura de Morales e tenta convencer os Estados Unidos de que o líder cocalero pode estabilizar o país e iludir a “serpente soberana”.
Mas a frente de movimentos sociais rachou. O movimento de El Alto, líderes ameríndios como Felipe Quispe e parte da COB pretendem ir mais longe, retomando as teses de autonomia indígena e de nacionalização geral dos recursos naturais. Eles rejeitam o Congresso boliviano e não acreditam em eleições, pois lembram-se dos sucessivos governos que traíram as bandeiras da revolução de 52.
Querem o poder popular: a “serpente soberana”.
Boletim Mundo n° 4 Ano 13
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