quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

SANTA CRUZ PEDE AUTONOMIA E AMEAÇA A UNIDADE NACIONAL

O pólo econômico da Bolívia transferiu-se do Altiplano para o Oriente. A elite oriental associou seus interesses ao Brasil e rejeita o poder de La Paz.
A Bolívia tornou-se um Estado independente em 1825.
Na época, seu território estendia-se por 2,3 milhões de km2. Atualmente, ele não tem mais que 1,1 milhão de km2. Sob o impacto de sucessivos desmembramentos, a Bolívia “encolhia”, enquanto se configurava o desenho das fronteiras políticas na América do Sul.
Na Guerra do Pacífico (1879-84), a derrota para o Chile custou à Bolívia o porto de Antofagasta e sua única “saída oceânica”, a província de Atacama. A chamada “guerra da borracha”, em área ocupada por seringueiros brasileiros, concluiu-se em 1903 com a venda do Acre ao Brasil. A Guerra do Chaco (1932-35), motivada por descobertas de petróleo no sopé dos Andes, terminou com a vitória paraguaia e a perda boliviana do Chaco Boreal.
A memória mais amarga é a da Guerra do Pacífico.
Até hoje, a Bolívia mantém uma Marinha quase simbólica, que realiza operações no Lago Titicaca, a 3.800 metros de altitude, e os livros escolares exibem mapas políticos que abrangem a província de Atacama. Os governos bolivianos continuam a reivindicar junto ao Chile, sem sucesso, o direito soberano de acesso ao Pacífico.
Mas a “pequena Bolívia” continua a ser um país de grande extensão territorial. Suas terras são drenadas pelas duas grandes bacias hidrográficas sul-americanas – a Amazônica e a Platina – e abrangem três vastos domínios naturais.
O norte e o leste, atravessados pelos rios Beni, Mamoré e Guaporé, fazem parte da Amazônia. O sudeste, atravessado pelo rio Pilcomayo e por afluentes do Paraguai, é um trecho da larga planície interior do Chaco. Todo o centro e o oeste encontram-se nos domínios dos Andes, que compreendem as cordilheiras Ocidental e Oriental e, circundado por elas, o vasto Altiplano. As duas capitais – La Paz, a sede do governo, e Sucre, a sede do Judiciário – e a terceira maior cidade, Cochabamba, situam-se no Altiplano.
Santa Cruz de la Sierra, a segunda maior aglomeração urbana e o mais rico centro econômico do país, situa-se no Oriente, no vale do Mamoré, onde a Amazônia encontra-se com o Chaco.
Os geopolíticos militares brasileiros interpretaram a Bolívia como território-chave para a conquista da hegemonia na América do Sul. Na sua obra Projeção continental do Brasil, publicada em 1935, o capitão Mario Travassos sustentava a idéia de que o povoamento do Oeste brasileiro deveria conclui-se com o estabelecimento de uma esfera de influência sobre a Bolívia. Desse modo, o Brasil controlaria a heartland (“terra-coração”) do subcontinente, isolando a Argentina e abrindo caminho na direção do Pacífico.
As propostas de Travassos foram retomadas pelos generais Golbery do Couto e Silva e Carlos de Meira Mattos.
A obra célebre de Golbery, Geopolítica do Brasil, publicada em 1967 e escrita durante a construção de Brasília, divide a América do Sul em cinco grandes compartimentos geopolíticos. Essa obra dedica-se ao exame das condições para a projeção do poder brasileiro da “plataforma central de manobra” (o leste do Brasil) em direção à “área continental” (o oeste do Brasil, a Bolívia e o Paraguai).
A projeção de poder rumo à Bolívia já havia se iniciado.
Em 1955, a Estrada de Ferro Brasil-Bolívia, uma extensão da ferrovia Noroeste do Brasil, conectou Santa Cruz a Corumbá, Campo Grande, Bauru e Santos. A Bolívia ganhava uma “saída oceânica” pelo Atlântico e o Brasil começava a reorientar a economia boliviana para a esfera de Santa Cruz. Por essa época, o Altiplano, com suas minas de estanho, era o pólo econômico da Bolívia e Santa Cruz não passava de uma pobre cidade periférica.
Mas a mudança se iniciava: empresários do Altiplano, assustados com a revolução dos mineiros de 1952, deslocavam-se para a despovoada área oriental de Santa Cruz. Bem mais tarde, nas décadas de 70 e 80, o avanço da soja a partir do Centro-Oeste brasileiro e a crise das minas de estanho transferiram o pólo econômico boliviano para o Oriente. Em 1985, o governo boliviano demitiu 20 mil mineiros, mestiços e ameríndios, que representavam três quartos da força de trabalho da Comibol, a estatal de mineração criada com a revolução de 1952. Ao mesmo tempo, os negócios de Santa Cruz associavam-se cada vez mais à economia brasileira.
As descobertas de gás natural e petróleo no Oriente completaram a mutação econômica. Os hidrocarbonetos, exportados para o Brasil, a Argentina e países do hemisfério norte tornaram-se as principais fontes de riqueza da Bolívia. O gasoduto Brasil-Bolívia foi inaugurado em 1999. A Petrobras estabeleceu um braço boliviano, a Empresa Boliviana de Refinação (EBR), que já se tornou a maior empresa do país. Os líderes da revolução em curso encaram a EBR como um símbolo da hegemonia brasileira e ameaçam nacionalizá-la.
Desde a sua origem, a Bolívia é uma república unitária.
Depois da revolução de 52, a elite de Santa Cruz continuou a defender o unitarismo, que garantia a distribuição a todos os departamentos dos recursos originados da mineração, no Altiplano. Essa posição mudou nas últimas décadas, junto com o deslocamento espacial do pólo econômico. Há algum tempo, os empresários de Santa Cruz articulam-se em torno da bandeira da autonomia regional.
A agitação revolucionária, que se concentra entre os ameríndios e mestiços do Altiplano, tem como contrapartida a intensificação do movimento autonomista. No fundo, os brancos de Santa Cruz sonham com a ruptura com La Paz. Seus corações, mentes e interesses estão no Brasil, não na Bolívia.

Mapas Comparativos
Boletim Mundo n° 4 Ano 13


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